segunda-feira, 30 de setembro de 2013
ContrapontoPIG: Contraponto 12.309 - "E aí, Aécio Neves, vamos con...
ContrapontoPIG: Contraponto 12.309 - "E aí, Aécio Neves, vamos con...: . 28/09/2013 E aí, Aécio Neves, vamos conversar? ...
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Brutal pressão midiática em nada influenciou decisão de Mello
Celso
de Mello: “fui exposto a uma brutal pressão midiática” (em O Cafezinho)
26
de setembro de 2013
Hoje,
na coluna Painel, da Folha, o ministro Celso de Mello abriu o verbo
contra o que a mídia tentou fazer sobre ele para que recusasse o voto pela
admissibilidade dos embargos infringentes. Ele diz que “ em 45 anos de
atuação na área jurídica (…) nunca presenciei um comportamento tão ostensivo
dos meios de comunicação sociais buscando, na verdade, pressionar e
virtualmente subjugar a consciência de um juiz.”.
Leia,
abaixo, o desabafo do decano do STF, tanto a um jornal de sua cidade
natal, Tatuí (SP), quanto a Monica Bergamo, da Folha, e, claro, espere em vão
algum meia culpa do jornal e dos outros meios que fizeram essa “brutal pressão
midiática”:
O ministro Celso de Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), fez um
desabafo no começo da semana a um velho amigo, José Reiner Fernandes, editor do
“Jornal Integração”, de Tatuí, sua cidade natal. Em pauta, críticas que recebeu
antes mesmo de votar a favor dos embargos infringentes, que deram a réus do
mensalão chance de novo julgamento em alguns crimes.
“Há alguns que ainda insistem em dizer que não fui
exposto a uma brutal pressão midiática. Basta ler, no entanto, os artigos e
editoriais publicados em diversos meios de comunicação social (os ‘mass media’)
para se concluir diversamente! É de registrar-se que essa pressão, além de
inadequada e insólita, resultou absolutamente inútil”, afirmou ele.
èMello
parece estar com o assunto entalado na garganta. Na terça-feira (24), ele
respondeu a um telefonema da Folha para confirmar as declarações
acima. E falou sobre o tema por quase meia hora.
“Eu imaginava
que isso [pressão da mídia para que votasse contra o pedido dos
réus] pudesse ocorrer e não me senti pressionado. Mas foi insólito esse comportamento. Nada impede
que você critique ou expresse o seu pensamento. O que não tem sentido é pressionar o juiz.”
“Foi
algo incomum”, segue. “Eu honestamente,
em 45 anos de atuação na área jurídica, como membro do Ministério Público e
juiz do STF, nunca presenciei um comportamento tão ostensivo dos meios de
comunicação sociais buscando, na verdade, pressionar e virtualmente subjugar a
consciência de um juiz.”
“Essa tentativa de subjugação midiática da consciência crítica do juiz
mostra-se extremamente grave e por isso mesmo insólita”, afirma.
E traz riscos. “É muito perigoso qualquer ensaio que busque subjugar o
magistrado, sob pena de frustração das liberdades fundamentais reconhecidas
pela Constituição. É inaceitável, parta de onde partir. Sem magistrados
independentes jamais haverá cidadãos livres.”
“A liberdade de
crítica da imprensa é sempre legítima. Mas às vezes é veiculada com base em
fundamentos irracionais e inconsistentes.” Por isso, o juiz não pode se
sujeitar a elas. “Abordagens passionais de temas sensíveis descaracterizam a
racionalidade inerente ao discurso jurídico. É fundamental que o juiz julgue de
modo isento e independente. O que é o direito senão a razão desprovida da
paixão?”
O ministro repete: não
está questionando “o direito à livre manifestação de pensamento”. “Os meios de
comunicação cumprem o seu dever de buscar, veicular informação e opinar sobre
os fatos. Exercem legitimamente função que o STF lhes reconhece. E o tribunal
tem estado atento a isso. A plena liberdade de expressão é inquestionável.” Ele
lembra que já julgou, “sem hesitação nem tergiversação”, centenas de casos que
envolviam o direito de jornalistas manifestarem suas críticas. “Minhas decisões
falam por si.”
Celso de Mello lembra
que a influência da mídia em julgamentos de processos penais, “com possível
ofensa ao direito do réu a um julgamento justo”, não é um tema inédito. “É uma
discussão que tem merecido atenção e reflexão no âmbito acadêmico e no plano do
direito brasileiro.” Citando quase uma dezena de autores, ele afirma que é
preciso conciliar “essas grandes liberdades fundamentais”, ou seja, o direito à
informação e o direito a um julgamento isento.
O juiz, afirma ele,
“não é um ser isolado do mundo. Ele vive e sente as pulsões da sociedade. Ele
tem a capacidade de ouvir. Mas precisa ser racional e não pode ser constrangido
a se submeter a opiniões externas”.
Apesar de toda a
pressão que diz ter identificado, Celso de Mello afirma que o STF julgou o
mensalão “de maneira independente”. E que se sentiu “absolutamente livre para
formular o meu juízo”. No julgamento, ele quase sempre impôs penas duras à
maioria dos réus.
Por:
Fernando Brito
As manifestações segundo Chauí
Capítulo II
cont...
cont...
C: Sem nenhuma mediação…
MC: Sem mediação. Essa relação mágica com a realidade está
diretamente relacionada com um elemento poderosíssimo da sociedade de consumo e
muito usado pelos meios de comunicação: a satisfação imediata do desejo. É uma
das raízes da violência, porque anula a mediação, quando, na verdade, o desejo
precisa de mediação. No âmbito das manifestações, isso se expressa pela recusa
da mediação política. Por que falo em pensamento mágico? Porque o fato de que
houve uma longa e difícil negociação em torno da tarifa passa despercebido; é
como se o resultado tivesse sido imediato, um passe de mágica. Ora, quando se
tira a mediação institucional, o que se pede é a ditadura. Por exemplo, quando
vi um rapaz enrolado na bandeira brasileira dizer “meu partido é meu país”,
falei comigo mesma: “É algum neonazista que comanda esse menino, pois esse foi
o discurso nazista para a supressão dos partidos políticos!”, o que é muito
assustador e ainda mais assustador quando uma parte dos manifestantes espancou
e ensanguentou manifestantes de esquerda. Eu sempre digo: a crítica aos
partidos brasileiros é justificada, a crítica aos governos é justificada, o que
não é justificado é não perceber qual a origem desse sistema partidário, qual é
a origem desse sistema eleitoral e como é que se luta contra ele. Não se luta suprimindo
os partidos, mas produzindo uma nova institucionalidade. E não há essa
percepção por grande parte dos manifestantes. Finalmente, outro elemento a ser
pensado é o fato de que – ao menos em São Paulo e no Rio – as manifestações de
periferia são qualitativamente diferentes das manifestações do centro das
cidades. Na periferia, não são manifestações de juventude; ao contrário, há
adultos, idosos, crianças e jovens, e as demandas são muito claras. As
manifestações do centro das cidades, pelo menos em São Paulo e no Rio de
Janeiro, são predominantemente de classe média, e é essa presença que é
preocupante, porque sabemos que, depois do Comício dos Cem Mil, em 1964, no Rio
de Janeiro, a resposta foi a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, apoiada
por Ademar de Barros (governador de São Paulo) e pelos governadores do RJ, MG e
BA. Depois houve em outros estados. Foi uma grande marcha de classe média para
derrubar o governo Goulart, o que aconteceu no dia 1˚ de abril daquele ano. E
depois foi a classe média qu deu o sustentáculo ideológico e apoio social à
ditadura civil-militar. Quando vi, nessas duas cidades, as esquerdas tendo de
disputar a rua com a direita, não pude deixar de ter essas lembranças. Isso é
muito preocupante.
C: Do que falamos quando falamos de classe média?
MC: Há um ano participei de duas reuniões do Conselho de Desenvolvimento
Social, criado pela presidenta Dilma para pensar o que eles chamam de “nova
classe média”. Nas duas ocasiões, minhas intervenções foram no sentido de
dizer: não há uma nova classe média, e sim a velha classe média, que cresceu,
prosperou, e está aí. O que surgiu no Brasil com os programas sociais que
tiraram 40 milhões de pessoas da linha da miséria (garantido-lhes três
refeições diárias, moradia e ensino fundamental) é uma nova classe
trabalhadora. Não faz sentido usar os instrumentos dos institutos de pesquisa e
da sociologia, falando de classe A, B, C, D, E, definidas por renda e
escolaridade. É preciso pensar as classes sociais conforme sua relação com a
forma da propriedade e do sistema de produção, isto é, os proprietários
privados dos meios sociais de produção e os não-proprietários, isto é, a força
produtiva, os trabalhadores. Situada fora do poder econômico (do capital) e da
organização social (dos trabalhadores) está a classe média, que sonha com
aquele poder e tem como pesadelo “cair” na classe trabalhadora. Esse critério
nos permite compreender que o que surgiu no Brasil com os programas sociais foi
uma nova classe trabalhadora, mas que surge no momento em que vigora o
capitalismo neoliberal. Então ela é precarizada, fragmentada, não possui formas
de organização e de referência que lhe permitam ter clara identidade, nem
formas de expressão no espaço público. Por isso é atraída pelas ideologias de
classe média, como a “teologia da prosperidade” (do pentecostalismo) e a do
“empreendedorismo” (dos chamados micro-empresários). Mas eu não fui ouvida em
Brasília. Depois houve uma reunião final de apresentação de resultados e a equipe
técnica continuou com as classes A, B, C, D, E. Disse pra mim mesma: “Sou voto
vencido. Vou para casa”. Mas pensei: “Preciso deixar isso registrado”. Então
quando a FLACSO (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) e o Emir Sader
organizaram o livro sobre os dez anos Lula/Dilma, decidi que meu artigo seria
sobre a nova classe trabalhadora e a necessidade de uma reforma tributária, de
uma reforma política e de uma reorganização dos movimentos sociais. Eu sei que
o meu artigo destoa dos outros, que se referem às conquistas reais e importantes
desses dez anos, mas eu achei que tinha um dever político. Voltando
precisamente às manifestações: se se opera com a noção de uma nova classe
média, quais serão os programas que deverão ser implantados para atender a essa
classe? Serão programas de estímulo às montadoras, às empreiteiras
imobiliárias, às importadoras, aprofundando ao mesmo tempo o consumo, a
competição e o isolamento. E faz-se explodir o inferno urbano. Quando falo no
inferno urbano, viso essa concepção de que os programas governamentais devem
estar a serviço dessa classe média.
C: Isso explica a sua afirmação de que odeia a classe média?
MC: É.
C: De fato, ter uma casa confortável, andar de avião, comer
bem e poder ir ao cinema não são sinais de classe média… É outra coisa querer
absolutamente comprar um carro 4×4… É essa classe média que você odeia? Quer
dizer, um ideal de consumo que se está construindo?
MC: Quem ia à Europa nos anos 1950-1960 via trabalhadores dirigindo pequenos
carros (na França, o famoso “dois cavalos” da Renault; na Inglaterra, o pequeno
“biriba” da Morris; na Itália, o pequeno “cinquecento” da Fiat), saindo de
férias com a família (em geral para alguma praia), fazendo compras em lojas de
departamento populares, enviando os filhos a creches públicas e, quando
maiores, à escola pública de primeiro e segundo graus, às escolas técnicas e
mesmo às universidades; também via os trabalhadores tendo direito, juntamente
com suas famílias, a hospitais públicos e medicamentos gratuitos, e,
evidentemente, possuíam casa própria. Era a Europa da social-democracia e da
economia keynesiana, quando as lutas anteriores dos trabalhadores organizados
haviam levado à eleição de governantes de centro ou de esquerda e ao surgimento
do Estado do Bem-Estar Social, no qual uma parte considerável do fundo público
era destinada, sob a forma de salário indireto, aos direitos sociais, reivindicados
e, então, conquistados pelas lutas dos trabalhadores. E não viria à cabeça de
ninguém dizer que os trabalhadores europeus haviam passado à classe média, como
se diz hoje dos trabalhadores brasileiros, após 10 anos de políticas de
transferência de renda. Mais do que isso, a classe média conservadora (não falo
da parte da classe média que se alinha à esquerda) não tolera isso, grita e
espuma contra esses direitos dos trabalhadores. É por isso que eu falo nas
“três abominações” que definem essa classe média: trata-se de uma abominação
política, porque é fascista; uma abominação ética, porque é violenta; e de uma
bominação cognitiva, pois ela é ignorante. Eu acho que muito do que as ruas
mostraram no Brasil inteiro foram essas três abominações. Não estou celebrando,
diferentemente de vários dos meus colegas, que estão dizendo que um novo Brasil
começa, que nada será como antes, que o gigante acordou… Pelo contrário, para
quem viu a disputa desigual pelo direito à rua entre os manifestantes de
esquerda e de direita, talvez valha a pena lembrar o que escreveu Espinosa: não
rir, não lamentar, não detestar nem compactuar, mas compreender.
C: Criticando esse ideal de classe média, você critica o
governo federal. O que você diria, então, sobre os comentários que a tomam por
alguém de postura fisiológica, cega para os problemas do PT e fascinada pelo
fetiche do PT?
MC: Vou contar dois episódios. Quando eu estava ainda no governo da Erundína
(1989-1993), já no final da administração, houve um congresso do PT. Eu fui no
último dia, quando havia deliberações e moções para apresentar na assembleia
geral. Entrei na primeira sala, sentei. Disseram algumas coisas. Não concordei
e levantei a mão. A pessoa que estava dirigindo os trabalhos disse: “A
companheira é delegada”? Eu disse: “Não”. “Então a companheira não pode falar”.
Pensei com meus botões: “Entrei na sala errada. Esta não é uma sala petista.
Deixe-me sair”. Saí. Entrei numa outra sala, discutia-se outra coisa. Também
tive uma discordância e levantei a mão. A pessoa que dirigia me perguntou: “A
companheira é delegada?” Eu disse: “Não, mas já participei de tanto Congresso
do PT em que a gente fala… Eu não vou votar, porque eu não sou delegada, mas eu
vou falar”. “Não, a companheira não pode falar”. Esse congresso era num lugar
que tinha um pátio imenso interno grande. Fui, então, para o meio do pátio e
comecei a gritar: “Destruíram o PT! O PT acabou! É preciso refazer o PT!”. Fui
levada para fora do recinto, porque “a companheira não estava entendendo o
congresso”. Bom, eu venho do período em que o PT era a reunião de movimentos
sociais e populares, Comunidades Eclesiais de Base, movimentos sindicais,
exilados políticos, ex-guerrilheiros, estudantes, professores, escritores,
artistas… Nós formávamos o partido e discutíamos tudo; decidíamos tudo. Quando
vi o formato que tinha tomado, falei: “virou uma máquina burocrática”. Tanto
que, embora filiada e defensora do participo, não participo de mais nada no
interior dele, desde 1993, porque não concordo com essa estrutura. Segundo
episódio: quando ocorreu o Mensalão e houve toda a crise, surgiu um grupo que
propôs a refundação do PT sob a liderança de Tarso Genro; é um grupo que se
chama “Mensagem ao PT”. Eu participo desse grupo, que é completamente autônomo.
De vez em quando, temos uma ideia e comunicamos uns aos outros. O Juarez
Guimarães fez um livro chamado Leituras da Crise. Lá se encontra minha análise
crítica do que aconteceu com o PT: máquina burocrática, máquina eleitoral, sem
participação das bases, afastado dos movimentos que deram origem a ele e que o
fizeram crescer; portanto, um partido que precisa ser refundado. Dizer que eu
estou cegada pelo PT, dizer que eu não faço críticas ao PT é coisa de gente que
não lê a literatura política. Basta ler a revista Teoria&Debate, o livro do
Juarez Guimarães e os artigos que eu publiquei mundo afora para ver que sou
extremamente crítica. Mas o fato de eu ser crítica não significa que invalido o
partido que vi nascer e que foi a condição do estabelecimento da democracia no
Brasil, porque foi o único que introduziu a ideia de direitos sociais,
políticos e culturais, pois a democracia se define pela criação e garantia de
direitos novos. Eu não abro mão disso. O partido não me traiu (como dizem os
que o abandonaram). Ele me encoleriza, me enraivece. Eu quero fazer outro com
ele, mudá-lo de cima abaixo. Mas sou petista. Isso faz parte da minha história
política, da minha luta e do enorme respeito que tenho pelos grandes militantes
ao longo de sua história.
dan2010: As manifestações segundo Marilena Chauí
dan2010: As manifestações segundo Marilena Chauí: Chauí fala sobre manifestações Capitulo I por Miguel do Rosário 28/08/2013 Em entrevista à revista Cult, a filósofa Marilena C...
As manifestações segundo Marilena Chauí
Chauí fala sobre manifestações
Capitulo I
Em entrevista à revista Cult, a filósofa Marilena Chauí dá
sua opinião sobre as “jornadas de junho”, as grandes manifestações que tomaram
conta do Brasil no período.
Revista CULT n˚ 182
A Lucidez de Marilena Chaui
Por Juvenal Savian Filho
Não seria possível não ouvir
Marilena Chaui a respeito das manifestações de 2013. Pensadora de importância
inestimável na história da cultura brasileira, Marilena chamou a atenção nos
últimos anos por ter rompido com a mídia. Depois do tratamento imprudente que a
maior parte do jornalismo brasileiro deu a questões políticas graves, Marilena
decidiu “não falar mais”. Seu silêncio tornou-se insuportável para os grandes
veículos de comunicação. Frequentemente cronistas dizem: “o que Marilena Chaui
pensaria sobre isso?”. É óbvia a ironia da pergunta, usada para dar a entender
que o silêncio de Marilena se deve ao fato de ela não ter o que dizer diante
dos erros do PT e do governo federal, tão defendidos por ela nos últimos 10
anos.
À CULT, porém, Marilena nunca fechou as portas. Muito pelo
contrário. E no último domingo de junho, em plena fase das manifestações por todo
o Brasil, ela nos acolheu em sua casa, no fim da tarde, para uma conversa
franca na qual ela não apenas comenta o sentido das manifestações, com também
fala com sinceridade de suas críticas ao PT e ao governo do PT. Não o faz,
todavia, com amargura ou ressentimento, mas com a força e a coragem de uma
mulher lúcida e clara, engajada numa luta que não se perde nem em posições
ligeiras nem em novidades fáceis. Com a generosidade que a caracteriza, ela
sabe triar o que é bom e o que deve ser questionado, mas sendo sempre movida
pelo bem, pela responsabilidade intelectual e pela lucidez de quem tem experiência.
Como dizia Maurice Merleau-Ponty, o intelectual é aquele que “levanta e fala”.
Mas, muitas vezes, o levantar e o falar têm sido acompanhados de
inconsequências que vão desde a incapacidade de análise até o autoritarismo da
arrogância em nome da racionalidade (ou em nome de nada…). Definitivamente,
esse não é o caso de Marilena Chaui.
CULT: Qual foi sua primeira reação ao ver tanta gente nas
ruas durante as manifestações de 2013?
Marilena Chaui: Um susto! Acompanhei as tentativas de manifestação do Passe Livre na USP e vi que o movimento não conseguia mais do que três gatos pingados para escutar. Nem digo participar da manifestação, mas escutar. Imaginei que iriam para a rua com cinquenta, cem pessoas. Então, levei um susto, pois não tinha entendido a relação entre o que eles estavam fazendo, ou seja, a fórmula clássica da mobilização, e o uso das redes sociais. Se eu soubesse que eles iriam usar as redes sociais, não teria me assustado, pois associaria com outros eventos que já vi no mundo.
C: E como se deu sua compreensão das manifestações?
MC: No primeiro dia, pelo menos em São
Paulo, as palavras de ordem eram referentes ao transporte. Depois da
primeira manifestação, participei do Conselho da Cidade convocado pelo prefeito
Fernando Haddad. Os representantes do Passe Livre foram e falaram. Eles eram
cinco e cada um falou 15 minutos. Depois os conselheiros falaram. Todos os
conselheiros pediram a revogação do aumento das tarifas. èO secretário municipal de
Transportes, Jilmar Tatto, mostrou as planilhas e depois falou o prefeito. Eu
imediatamente pensei: se o prefeito revogar, os meninos vão à rua comemorar: se
ele não revogar, vai haver uma passeata não só como a primeira, mas sobretudo
com incorporação das palavras de ordem das outras cidades. E não deu outra.
Algumas pessoas ficaram perplexas; eu não. Diziam: “Como
pode haver manifestação? A inflação está sob controle; o desemprego diminuiu;
os programas sociais funcionam; há estabilidade econômica e política!” Ou seja, os temas que sempre caracterizaram as
manifestações no Brasil estavam ausentes. Eu não fiquei perplexa no que se
refere a São Paulo, porque tenho dito há um bom tempo que a cidade está se
tornando um inferno urbano. Está impossível viver nela, seja pelo trânsito,
pela indecência do transporte coletivo, seja pela explosão demográfica com os
condomínios e “shopping centers”. Achei compreensível, e, num primeiro momento,
pensei que as manifestações iriam girar em torno dos temas urbanos. Mas quando
se viraram contra a política, contra a mediação institucional, aí, sim, fiquei
com medo, porque já vi esse filme em 1964 e 1969. A gente sabe o que aconteceu
nos anos 1920, na Itália, e nos anos 1930, na Alemanha, sobre a recusa da
política.
C: Mas se falou muito que Haddad foi ambíguo. Ele disse que
não revogava o aumento das tarifas, mas depois revogou…
MC: Não, ele não foi ambíguo. Ele disse o seguinte: “Se eu
revogar, significa que tenho de aumentar o subsídio. Para aumentar o subsídio,
vou ter de cortar recursos dos programas sociais. Então, tenho de ver isso com
meu secretariado; tenho de analisar onde eu vou mexer para subsidiar e para
fazer o corte”. Na verdade, ele pediu um tempo para as pessoas. Não disse que
não iria revogar. E foi nessa hora que alguns conselheiros (como os do
movimento Afroeducação) e os membros do Passe Livre disseram que não queriam
saber de planilha, que queriam a revogação imediata. Então, não houve
ambiguidade. Faltou intuição política, pois Haddad poderia ter dito: “Vou
revogar, mas convido imediatamente o Movimento Passe Livre para uma reunião
comigo e com o secretariado para fazermos um estudo de onde eu vou tirar o
subsídio”. Com isso, ele incorporaria o movimento à discussão de outros problemas
da cidade e teria sido mais politizador. Haddad deu uma resposta técnica em um
momento que pedia uma resposta política.
C: Algumas pessoas dizem que as manifestações tiveram uma
deriva à direita. Um dado curioso é que há políticos da oposição, seja de “esquerda”,
como os do PSTU e do PSOL, seja de “centro-direita”, como os do PSDB, que têm
se servido das manifestações para alimentar um discurso anti-PT e
anti-Dilma…Você vê uma deriva à direita ou uma deriva anti-governo?
MC: Não vejo nem uma coisa nem outra neste momento. Não posso dizer que amanhã não vá ser isso. O que vejo neste momento é que, como o PSOL e o PSTU não têm representatividade social, pois são minúsculos, o crescimento da manifestação de rua fez com que eles julgassem que poderiam se apropriar dela. Não houve liderança de esquerda, mas uma tentativa, desses partidos, de se apropriar de um movimento de massa que seriam incapazes de realizar. A mesma coisa ocorre com a direita, que não tem força de mobilização, operando sempre por lobby e por meio da repressão (basta ver como opera o lobby dos ruralistas contra o MST e os índios). A chamada oposição de centro-direita está caindo pelas tabelas (basta lembrar o que aconteceu com o movimento do PSDB, o “Cansei”), e por isso, depois de investir contra os movimentos de rua por meio da repressão policial, tenta se apropriar deles porque julga que podem desestabilizar o governo Dilma. Afinal, a primeira atitude do Geraldo Alckmin foi chamar a polícia. Na USP, quando há manifestações, a primeira atitude do reitor é chamar a polícia. Não há nenhum vínculo real entre os partidos chamados de oposição, particularmente o PSDB, e os movimentos de massa. Então, o que temos é: o movimento correndo pelo meio e duas tentativas extremas de apropriação.
MC: Não vejo nem uma coisa nem outra neste momento. Não posso dizer que amanhã não vá ser isso. O que vejo neste momento é que, como o PSOL e o PSTU não têm representatividade social, pois são minúsculos, o crescimento da manifestação de rua fez com que eles julgassem que poderiam se apropriar dela. Não houve liderança de esquerda, mas uma tentativa, desses partidos, de se apropriar de um movimento de massa que seriam incapazes de realizar. A mesma coisa ocorre com a direita, que não tem força de mobilização, operando sempre por lobby e por meio da repressão (basta ver como opera o lobby dos ruralistas contra o MST e os índios). A chamada oposição de centro-direita está caindo pelas tabelas (basta lembrar o que aconteceu com o movimento do PSDB, o “Cansei”), e por isso, depois de investir contra os movimentos de rua por meio da repressão policial, tenta se apropriar deles porque julga que podem desestabilizar o governo Dilma. Afinal, a primeira atitude do Geraldo Alckmin foi chamar a polícia. Na USP, quando há manifestações, a primeira atitude do reitor é chamar a polícia. Não há nenhum vínculo real entre os partidos chamados de oposição, particularmente o PSDB, e os movimentos de massa. Então, o que temos é: o movimento correndo pelo meio e duas tentativas extremas de apropriação.
C: Isso favorece a apropriação pela direita?
MC: Essa é a minha preocupação. Há elementos que favorecem a apropriação e a manipulação pela direita: o primeiro é o fato de os manifestantes confundirem o que significa ter uma direção e o que significa ter uma liderança. Como eles se organizam em termos de autogestão e horizontalidade, sem dirigentes e dirigidos, eles identificam ter um rumo com ter um líder. Não percebem que não é a mesma coisa. As manifestações, por enquanto, estão sem rumo; têm palavras de ordem as mais variadas, mas não um rumo, o que as torna fragéis e apropriáveis pela mídia e pela direita. O segundo elemento é o que eu chamo de pensamento mágico: os manifestantes usaram as redes sociais, ou seja, um instrumento do qual são apenas usuários e de que não têm conhecimento técnico aprofundado nem qualquer controle econômico. As redes estão inseriadas numa gigantesca estrutura técnico-científica, econômica e com vigilância e controle geopolíticos (o caso que acaba de ser revelado da espionagem norte-americana sobre todo o planeta não pode ser minimizado), de maneira que, sob a aparência de ser uma alternativa libertária, ela também insere os usuários no mundo do controle e da vigilância. Penso que o caso do Egito é um alerta, embora, evidentemente, é um caso que não se compara ao nosso, pois lá a luta está mergulhada nos problemas postos pelas ditaduras e pelo fundamentalismo religioso, e, aqui, se dão numa democracia como luta por direitos. Mas o estopim lá (como em Nova York, na Wall Street) foi o uso das redes sociais. Há ainda um outro aspecto das redes que me pareceu muito claro nas manifestações brasileiras, ou seja, como o usuário não conhece bem o modo de funcionamento das redes, e como para ele basta apertar um botão para que coisas aconteçam, passa-se a ter com a realidade uma relação do mesmo tipo: eu quero, então acontece. Como num ato mágico.
MC: Essa é a minha preocupação. Há elementos que favorecem a apropriação e a manipulação pela direita: o primeiro é o fato de os manifestantes confundirem o que significa ter uma direção e o que significa ter uma liderança. Como eles se organizam em termos de autogestão e horizontalidade, sem dirigentes e dirigidos, eles identificam ter um rumo com ter um líder. Não percebem que não é a mesma coisa. As manifestações, por enquanto, estão sem rumo; têm palavras de ordem as mais variadas, mas não um rumo, o que as torna fragéis e apropriáveis pela mídia e pela direita. O segundo elemento é o que eu chamo de pensamento mágico: os manifestantes usaram as redes sociais, ou seja, um instrumento do qual são apenas usuários e de que não têm conhecimento técnico aprofundado nem qualquer controle econômico. As redes estão inseriadas numa gigantesca estrutura técnico-científica, econômica e com vigilância e controle geopolíticos (o caso que acaba de ser revelado da espionagem norte-americana sobre todo o planeta não pode ser minimizado), de maneira que, sob a aparência de ser uma alternativa libertária, ela também insere os usuários no mundo do controle e da vigilância. Penso que o caso do Egito é um alerta, embora, evidentemente, é um caso que não se compara ao nosso, pois lá a luta está mergulhada nos problemas postos pelas ditaduras e pelo fundamentalismo religioso, e, aqui, se dão numa democracia como luta por direitos. Mas o estopim lá (como em Nova York, na Wall Street) foi o uso das redes sociais. Há ainda um outro aspecto das redes que me pareceu muito claro nas manifestações brasileiras, ou seja, como o usuário não conhece bem o modo de funcionamento das redes, e como para ele basta apertar um botão para que coisas aconteçam, passa-se a ter com a realidade uma relação do mesmo tipo: eu quero, então acontece. Como num ato mágico.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
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